O livro é um mestre que fala mas que não responde. Platão
Já que não podemos ler tantos livros quantos os que podemos ter, basta que tenhamos tantos quantos possamos ler. Séneca
Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar. Padre António Vieira
Nada na vida deve ser receado. Tem apenas que ser compreendido. Marie Curie
A melhor prova de que a navegação no tempo não é possível é o facto de ainda não termos sido invadidos por massas de turistas vindos do futuro. Stephen Hawking
O Grande Acelerador de Partículas (Large Hadron Collider,
LHC), representa um dado epistemológico muito importante. Para além daquilo que
possa vir a descobrir-se ou dos dividendos comerciais e/ou tecnológicos que os
países contribuintes possam vir a retirar (e que, à partida, se constituem como
condicionantes em projectos desta envergadura), o LHC apresenta-se como um
momento de possibilidade de viragem paradigmática: em primeiro lugar, porque se
trata não apenas de um projecto científico-tecnológico, mas de um projecto
cultural no sentido mais lato da palavra. E, em segundo lugar, porque se irá
dar primazia à chamada ciência “pura” ou ciência de base – algo que parecia
estar arredado da cena internacional.
O que tem
acontecido desde há muito, pelo menos em projectos que envolvam grandes montantes,
é uma certa subalternização da ciência de base pela investigação de cunho
tecnológico, por via da lógica de mercado e do investimento privado onde se
obedece à criação de receitas e a margens de lucro – principalmente se
estivermos a falar do campo das bio-tecnologias ou no campo das tecnologias de
informação e comunicação. A competição existente entre laboratórios ou entre empresas,
a necessidade de rentabilização dos investimentos, em detrimento da partilha e
da colaboração, tem vindo a criar uma espécie de paradoxo da informação, no que
diz respeito àquela de acentuado cariz científico-tecnológico. Quer dizer, ao
mesmo tempo que nunca existiu tanto volume de informação acerca do conhecimento
em geral, assim também se assiste a uma restrição da informação científica mais
particular ou específica. Quem já navegou à procura de informação aprofundada
sobre um determinado assunto científico, sobre assuntos mais específicos, certamente
se apercebeu do fenómeno de estrangulamento que a informação sofre a partir de
determinada altura. Em princípio seria espectável que, à medida que se
avançasse nas hiperligações gratuitas, estas fossem escasseando, mas
mesmo as não-gratuitas rarefazem-se no ciberespaço, atomizam-se e surgem quase
sempre truncadas ou muito fragmentadas. Como se no jogo da informação os
jogadores mostrassem apenas uma parte das peças, normalmente aquelas que todos
já têm, escondendo o que pensam faltar a cada um – é claro que, sendo a parada
demasiado elevada, ninguém se arrisca a abrir o “jogo”.
Metáforas à
parte, o que se tem assistido nas últimas décadas, especialmente em áreas que
envolvam o investimento privado, é a um fechamento, a um confinar de
horizontes, o que em última instância contribuirá sempre para a desaceleração
do conhecimento ou para sua pouca expansão, por mais meios de difusão da informação que tenhamos ao dispor.
Ora, projectos como o LHC
representam precisamente uma ruptura com este estado de coisas, pois a sua
natureza implica necessariamente a partilha e a construção colectiva do
conhecimento – quer pelo número de países envolvidos, quer pelas competências
exigidas – algo em que, geralmente, a área da Física é pioneira e que devia ser
imitado por outras áreas do conhecimento humano.