As pessoas influenciam-nos, as vozes comovem-nos, os livros convencem-nos, os feitos entusiasmam-nos. John Henry Newman
Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.
José Almada Negreiros
Alguns livros são injustamente esquecidos; nenhum livro é injustamente lembrado. Wystan Hugh Auden
Nada na vida deve ser receado. Tem apenas que ser compreendido. Marie Curie
A melhor prova de que a navegação no tempo não é possível é o facto de ainda não termos sido invadidos por massas de turistas vindos do futuro. Stephen Hawking
No passado mês de Março realizou-se em Istambul, na Turquia,
o V Fórum Mundial da Água , onde se debateram, entre outros, o problema do
consumo exagerado (nos países ricos), o desperdício, a necessidade de se
encontrara respostas para a escassez de um recurso pressionado pelo crescimento
populacional, a ineficiência e o aumento galopante da produção de energia com
recurso a este bem.
Entre outros assuntos, abordou-se o facto de que o aumento
da escassez da água está a elevar os riscos de conflitos entre países que
partilham rios e lagos, na sua demanda por água potável.
Segundo as palavras do presidente do Conselho Mundial da
Água, Loïc Fauchon, “aumentar indefinidamente a oferta de água é cada vez mais
caro, muito mais caro hoje, num contexto de crise financeira e crise climática,
do que anteriormente. Para além de que aumentar a oferta irá colocar em perigo
o próprio recurso natural.
Para Fauchon, o
homem é o principal responsável “pelas agressões cometidas contra a água, pela
evolução do clima que se soma às mudanças globais e pelas pressões que reduzem
a disponibilidade das massas de água doce indispensáveis à sua própria
sobrevivência.”
Por sua vez, a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE), alerta para o facto do número de pessoas com
graves problemas no acesso à água potável poder atingir em 2030 cerca de 3,9
biliões, ou seja, metade da população mundial – sendo que a maioria vive na
China e Sul da Ásia. Ainda assim, as contas da OCDE não incluem o impacto das
mudanças climáticas, que podem estar já a afectar as coordenadas da água, quer
dizer, a alterar o lugar e o momento das chuvas e “nevascas” (veja-se o recente caso no
Dakota do Norte nos EUA e as cheias no Sul da China ).
Muitos cientistas afirmam que as principais causas da crise
da água são a irrigação ineficiente e excessiva, a contaminação dos rios, a
extracção descontrolada – que faz com que se esgotem algumas reservas de água
subterrânea dificilmente recuperáveis) – e o aumento exponencial de zonas de
forte concentração urbana – embora cerca de 2,5 biliões de pessoas não tenham
sequer acesso a saneamento básico.
Segundo o último relatório da Organização das
Nações Unidas (ONU), as reservas de água potável do planeta estão ameaçadas por
factores que incluem o aquecimento global, mas também as obsoletas técnicas de
irrigação, o desperdício que existe no transporte da água por causa de
canalizações antigas (nos países que as têm) e finalmente o próprio crescimento
demográfico – a previsão é de que a população mundial possa atingir os 9
biliões até meados do século XXI, o que fará aumentar consideravelmente a
procura de recursos hídricos, podendo-se atingir a astronómica cifra dos 64
biliões de metros cúbicos por ano, dificilmente comportáveis pelo planeta.
Mark
Smith, actual director da União Internacional para a Conservação da
Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), alertou que até 2025 dois terços da
população mundial estarão a viver sob os efeitos da carência de água. Segundo
ele, “o aquecimento global far-se-á sentir em primeiro lugar e de forma mais
intensa na água, seja na forma de secas, cheias, degelo e tempestades
fortíssimas, seja na elevação do nível do mar. A isto acrescem as palavras de Achim Steiner, director
executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA),que advertem para as consequências de uma
desigual distribuição da água no mundo, o que potenciará o desencadear de
conflitos em diversas regiões (não apenas africanas). Aliás, o actual conflito
no Oeste do Sudão , em Darfur , tem como uma
das principais causas precisamente a disputa pela água.
Para Daniel Zimmer, membro do Conselho
Mundial da Água
, é premente que “os políticos compreendam que a água devia
estar no topo das suas agendas e que é necessária para o bem-estar,
estabilidade e saúde das suas populações.”
Uma projecção feita pela ONU sobre os efeitos do aquecimento
global veio vincar ainda mais a urgência da agenda de Istambul: a partir de
2100 o Ártico deverá ficar privado de gelo no mês
de Setembro e o nível do mar poderá subir em, pelo menos, um metro, condenado
600 milhões de pessoas ao êxodo. Entretanto, o exponencial crescimento
demográfico e a crescente necessidade de utilização da água para fins
domésticos e industriais, anteciparão os problemas para a década de 30 deste
século.
Estamos a cerca de duas décadas das previsões mais sombrias
e catastróficas, mas são já centenas de milhões os seres humanos expostos ao
risco de desastres relacionados com a água. Só em África 500 milhões de pessoas
ainda sofre com a falta de condições básicas de saneamento. 80% das doenças,
nas nações em desenvolvimento, estão relacionadas com a qualidade da água ou
com a falta dela, sendo que pelo menos 10% das doenças poderiam ser evitados
com medidas básicas de saneamento e
higiene.