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Biocombustíveis – Uma Equação Negativa
Uma das contradições dos chamados “Biocombustíveis” é o
agravar dos problemas que, à partida, pretenderia combater. Joe Fargione,
investigador da Nature Conservancy , afirma que, se por um lado tentamos limitar o aquecimento do
planeta, por outro, contribuímos para o seu aumento ao apostar na produção
massiva de biocombustíveis. Pois que todos os biocarburantes actualmente
produzidos e utilizados obrigam a uma destruição de superfícies naturais para
dar lugar a culturas dedicadas aos biocombustíveis. Ora, este facto induz à
libertação de maiores quantidades de CO2 para a atmosfera do que aquelas que se
poupam relativamente à substituição dos combustíveis fósseis por
biocombustíveis.
Isto acontece por duas razões: Uma directa e outra
indirecta. O primeiro caso explica-se pelas queimadas de vastas extensões de
superfícies naturais arborizadas, para posterior cultivo de milho,
cana-de-açúcar, colza ou palmeiras, que libertam toneladas e toneladas de CO2
retido nas árvores. E indir ectamente, perde-se em grau de eficácia, na retenção
do CO2, uma vez que as culturas de substituição são muito menos eficazes, sob
esse ponto de vista, do que as árvores.
Dito de outro modo, o CO2 que irá para a atmosfera com
origem na destruição das florestas, savanas, etc., convertidas em terrenos de
cultura, ultrapassa o volume de CO2 não emitido graças à utilização dos
biocombustíveis.
Segundo a revista Science , a conversão de terrenos naturais para a produção de etanol
(milho e cana-de-açúcar) e biodiesel (soja principalmente), traduzem-se em
emissões de dióxido de carbono 17
a 400 vezes maiores do que a redução conseguida pela
substituição. Por exemplo, na Indonésia e Singapura, onde houve muita conversão
de turfeiras para a produção de óleo de palma, seriam necessários
aproximadamente 400 anos para que a produção de biocombustíveis tivesse uma
contribuição positiva na redução de emissão de CO2.
Para além disto, como esclarece Joe Fargione, “a agricultura
mundial produz já alimentos para seis mil milhões de seres humanos e ao
aumentar a produção de biocombustíveis forçará à conversão de mais superfície
natural para as culturas”, o que nos leva a um outro problema: o da inflação
dos preços dos produtos alimentares e o do perigo da sua escassez.
Biocombustíveis – O Preço dos Alimentos
Em 2007 o preço do trigo passou de 200 dólares a tonelada em
Maio para 400 em Setembro, o dobro da média dos últimos 25 anos. O milho acabou
o ano a situar-se nos 50% acima da média em 2006. Más colheitas devido a
intempéries, inundações de colheitas numas partes do globo e seca noutras
partes, baixos “stoks” e a procura crescente devido ao efeito dos
biocombustíveis, tudo contribuiu para que os preços disparassem e a escassez
começasse a ameaçar alguns países menos preparados.
Não por acaso, a revista Americana “The Economist”, chamava a atenção para o facto de os preços dos alimentos
terem atingido o valor mais elevado desde 1845, ano em que começou a ser
calculado. Segundo esta revista, para as populações mais pobres esta rápida
subida dos preços dos cereais, criada em grande medida pela corrida à produção
de biocombustíveis, pode vir a revelar-se catastrófica.
Outro dado importante a acrescentar nesta equação está na
China e na Índia, onde parte da população começa a ver o seu nível de vida
melhorado, permitindo-lhes luxos
antes longínquos como a carne. Este consumo crescente e agora mais alargado,
pois que também ocorre noutros países em vias de desenvolvimento, exige cada
vez mais a produção de rações animais, feitas à base de cereais.
Contudo, para Abdolreza Abbassian, economista da FAO (organização
das nações unidas para a alimentação e agricultura), a situação ainda não é
alarmante. Segundo este economista, acontece que as comparações de preços se
referem a duas décadas em que os cereais estavam muito baratos. Deste modo, os
preços estão a subir mas não para níveis insuportáveis porque estão a fazê-lo a
partir de uma base muito baixa. Por outro lado, o aumento dos preços dos
cereais, em termos reais, corrigindo a inflação, não é, por enquanto, muito
significativo. O problema está no possível agravamento de alguns indicadores,
tais como uma aceleração no aumento da procura, quer por via dos
biocombustíveis, quer por via das melhorias das condições de vida nos países em
vias de desenvolvimento; e também na forma como evoluirá o comportamento dos
fenómenos atmosféricos – este último muito pouco controlável.
Ironicamente, o avanço que representa a redução da
dependência do petróleo pode trazer problemas sérios de fome em várias zonas do
globo, bastando para isso, por exemplo, que o ano de 2008 seja igualmente
fustigado por intempéries ou pela obstinação de certos fenómenos atmosféricos,
muitos deles causados pelo aumento da temperatura global que, por sua vez, tem
origem, sobretudo, no aumento da concentração de CO2 na atmosfera.
Parece pois, que estamos perante um ciclo vicioso de difícil
rompimento, o qual exige medidas concertadas a nível planetário, assim como uma
não menos difícil mas urgente alteração no actual paradigma de desenvolvimento.
Fontes:
FAO
The Economist
Jornal Expresso (16/Fev/08)
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