Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor. António Lobo Antunes
Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro. Henry Thoreau
Ninguém é tão ignorante que não tenha algo a ensinar. Ninguém é tão sábio que não tenha algo a aprender. Blaise Pascal
A melhor prova de que a navegação no tempo não é possível é o facto de ainda não termos sido invadidos por massas de turistas vindos do futuro. Stephen Hawking
O que não consigo criar não consigo compreender. Richard P. Feynman
No passado mês de Março realizou-se em Istambul, na Turquia,
o V Fórum Mundial da Água , onde se debateram, entre outros, o problema do
consumo exagerado (nos países ricos), o desperdício, a necessidade de se
encontrara respostas para a escassez de um recurso pressionado pelo crescimento
populacional, a ineficiência e o aumento galopante da produção de energia com
recurso a este bem.
Entre outros assuntos, abordou-se o facto de que o aumento
da escassez da água está a elevar os riscos de conflitos entre países que
partilham rios e lagos, na sua demanda por água potável.
Segundo as palavras do presidente do Conselho Mundial da
Água, Loïc Fauchon, “aumentar indefinidamente a oferta de água é cada vez mais
caro, muito mais caro hoje, num contexto de crise financeira e crise climática,
do que anteriormente. Para além de que aumentar a oferta irá colocar em perigo
o próprio recurso natural.
Para Fauchon, o
homem é o principal responsável “pelas agressões cometidas contra a água, pela
evolução do clima que se soma às mudanças globais e pelas pressões que reduzem
a disponibilidade das massas de água doce indispensáveis à sua própria
sobrevivência.”
Por sua vez, a Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE), alerta para o facto do número de pessoas com
graves problemas no acesso à água potável poder atingir em 2030 cerca de 3,9
biliões, ou seja, metade da população mundial – sendo que a maioria vive na
China e Sul da Ásia. Ainda assim, as contas da OCDE não incluem o impacto das
mudanças climáticas, que podem estar já a afectar as coordenadas da água, quer
dizer, a alterar o lugar e o momento das chuvas e “nevascas” (veja-se o recente caso no
Dakota do Norte nos EUA e as cheias no Sul da China ).
Muitos cientistas afirmam que as principais causas da crise
da água são a irrigação ineficiente e excessiva, a contaminação dos rios, a
extracção descontrolada – que faz com que se esgotem algumas reservas de água
subterrânea dificilmente recuperáveis) – e o aumento exponencial de zonas de
forte concentração urbana – embora cerca de 2,5 biliões de pessoas não tenham
sequer acesso a saneamento básico.
Segundo o último relatório da Organização das
Nações Unidas (ONU), as reservas de água potável do planeta estão ameaçadas por
factores que incluem o aquecimento global, mas também as obsoletas técnicas de
irrigação, o desperdício que existe no transporte da água por causa de
canalizações antigas (nos países que as têm) e finalmente o próprio crescimento
demográfico – a previsão é de que a população mundial possa atingir os 9
biliões até meados do século XXI, o que fará aumentar consideravelmente a
procura de recursos hídricos, podendo-se atingir a astronómica cifra dos 64
biliões de metros cúbicos por ano, dificilmente comportáveis pelo planeta.
Mark
Smith, actual director da União Internacional para a Conservação da
Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), alertou que até 2025 dois terços da
população mundial estarão a viver sob os efeitos da carência de água. Segundo
ele, “o aquecimento global far-se-á sentir em primeiro lugar e de forma mais
intensa na água, seja na forma de secas, cheias, degelo e tempestades
fortíssimas, seja na elevação do nível do mar. A isto acrescem as palavras de Achim Steiner, director
executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA),que advertem para as consequências de uma
desigual distribuição da água no mundo, o que potenciará o desencadear de
conflitos em diversas regiões (não apenas africanas). Aliás, o actual conflito
no Oeste do Sudão , em Darfur , tem como uma
das principais causas precisamente a disputa pela água.
Para Daniel Zimmer, membro do Conselho
Mundial da Água
, é premente que “os políticos compreendam que a água devia
estar no topo das suas agendas e que é necessária para o bem-estar,
estabilidade e saúde das suas populações.”
Uma projecção feita pela ONU sobre os efeitos do aquecimento
global veio vincar ainda mais a urgência da agenda de Istambul: a partir de
2100 o Ártico deverá ficar privado de gelo no mês
de Setembro e o nível do mar poderá subir em, pelo menos, um metro, condenado
600 milhões de pessoas ao êxodo. Entretanto, o exponencial crescimento
demográfico e a crescente necessidade de utilização da água para fins
domésticos e industriais, anteciparão os problemas para a década de 30 deste
século.
Estamos a cerca de duas décadas das previsões mais sombrias
e catastróficas, mas são já centenas de milhões os seres humanos expostos ao
risco de desastres relacionados com a água. Só em África 500 milhões de pessoas
ainda sofre com a falta de condições básicas de saneamento. 80% das doenças,
nas nações em desenvolvimento, estão relacionadas com a qualidade da água ou
com a falta dela, sendo que pelo menos 10% das doenças poderiam ser evitados
com medidas básicas de saneamento e
higiene.